o peru

Na minha família, as pessoas sempre foram um bocado ligadas à música. Meus pais nos encheram os ouvidos com Balão Mágio, Trem da Alegria, Arca de Noé, muito rock progressivo e um pouco de Carmina Burana.

Então havia algum momento da noite em que ouvíamos música. E ouvíamos muito A Arca de Noé. E tinha essa música:

E eu achava que essa era a música do meu irmão, porque, bem, nenhuma das 3 irmãs tem um piru, né?

chile #3

Bom, já estou devendo essa postagem há alguns dias – então lá vai uma chuva de informação.

Como planejado, na minha primeira sexta-feira de Chile, eu visitei uma vinícola: Viña Santa Rita. Infelizmente, é inverno e as parreiras estavam todas podadas, então não deu para ver efetivamente uma plantação de uva. O passeio é bem legal e o guia era um gatinho. Essa é uma das poucas vinícolas que mostra todo o processo de fabricação do vinho: inclusive o engarrafamento – que é todo automatizado.

A vinícola fica um bocado afastada da cidade, então precisamos pegar o metrô até um ponto bem distante e, de lá, um micro-ônibus. A viagem dura cerca de 1h até a vinícola. Se você não vai de carro, fica uma charrete te esperando logo na entrada e te carrega até o início do passeio. Como eu estava no Chile para estudar espanhol, preferi o tour em espanhol, mas também é possível fazê-lo em português e inglês.

Eu fiz o último tour, que é o das 16h. Quando saí de lá, o sol havia começado a se por e a vista foi maravilhosa.

No dia seguinte, eu e minha nova amiga de escola fomos a Embalse el Yeso em Cajon del Maipo. Esse foi um dos lugares que me disseram que eu tinha a obrigação de visitar, porque é muito lindo. Não tenho outra opção que não seja concordar – o lugar é realmente maravilhoso.

Passou uma van para me buscar por volta das 7h e seguimos na estrada até o tal lugar maravilhoso. Grande parte da estrada é de terra e tem risco de deslizamento em diversos lugares. Além disso, o lugar não tem infraestrutura nenhuma.

É apenas um lugar bonito no meio da estrada. As companhias de turismo geralmente oferecem algum tipo de picnic e existem alguns banheiros químicos pelo caminho. Mas, no geral, os carros se acumulam pela estrada mesmo e os chilenos fazem churrasco entre um carro e outro.

Eu estava cheia de pretensão de sair à  noite quando voltasse do passeio, mas é extremamente cansativo esse passeio. Cheguei em casa e só queria cama.

Outra coisa: as empresas param em um lugar próximo e tentam te convencer a alugar botas, casacos e aqueles bastões de escalada. Não vale a pena, porque está muito frio na chegada, mas logo esquenta. Eu aluguei as botas, mas uma botinha de trekking já seria suficiente.

No domingo, eu assisti ao Cambio de Guardia – Troca de Guarda, em português – no Palacio La Moneda. A troca de guarda ocorre em dias alternados e é bem bonitinho. A banda toca Aquarela do Brasil e os brasileños deliram. É bonitinho, mas confesso ter ficado um pouco entediada.

Depois disso, eu desci no Centro Cultural La Moneda, que fica embaixo do palácio e fui ver a exposição do Andy Wahrol. Maravilhosa. Apaixonante. E lotada. Se eu não tivesse marcado compromisso na parte da tarde, teria ficado muito mais tempo lá, mas não dá pra ter tudo nessa vida.

À tarde, eu fui ao Templo Bahá’í da América do Sul. Ele fica no pé da Cordilheira dos Andes e o microclima lá é bem diferente do resto de Santiago. O lugar também é bem estranho. Fica numa periferia bem periferia. Acho que foi a única vez em que senti algo próximo de medo em Santiago. O motorista do ônibus e um passageiro começaram a discutir e o motorista sacou um canivete e foi em direção ao passageiro. Trocaram algumas ofensas e tudo ficou bem, mas…

O lugar é bem bonito e cheio de jardins. As pessoas geralmente vão para lá ver o sol se por, mas como eu estava de ônibus e o lugar é estranho, preferi não sair de lá muito tarde. Ainda assim, consegui umas fotos bem maneiras.

Na segunda, começou a minha segunda semana de aulas. Meu espanhol já estava mais confortável. Ainda assim, não consegui exercitar tanto, porque só tem brasileiro no Chile. Acho que tinha mais brasileiro em Santiago que em Vitória. Então eu não precisava falar espanhol o tempo inteiro.

Aproveitei que a maioria dos museus não abrem na segunda, e fui ao Cerro Santa Lucia. É bem mais baixo que o Cerro San Cristobal, mas é mais acolhedor. Dá vontade de ficar horas lá em cima. A vista é bonita, não é cansativa e o lugar é extremamente pacífico. Confesso que quis voltar lá para relaxar e ler um livro. Certamente teria feito se tivesse ficado mais tempo.

À noite eu saí para beber umas cervejas, porque nem só de turismo vive o homem.

Nessa semana, eu já estava bem mais cansada e com menos vontade de turistar. Foi uma semana mais leve, por assim dizer.

Na terça-feira, eu fui ao Parque Quinta Normal, que é um parque gigante com uma porção de museus dentro. Tem museu de ciência e tecnologia, de brinquedos, etc. Eu visitei o Museo Ferroviario. Ele é bem feinho: parece um cemitério de locomotivas. Se não me engano, são 16 locomotivas. Não pode subir na maioria delas e parece que a manutenção ali é escassa. Mas já me diverti.

Nesse parque, também tem o Museo Nacional de Historia Natural. Eu dei uma passada rápida, porque não tenho mais paciência para aprender sobre o Big Bang. No entanto, o museu tem um esqueleto de baleia e alguns animais empalhados que são muito legais. Acho que eu teria gostado mais se eu fosse criança.

Dali, parti para o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, que não fica no parque, mas fica em frente a ele.

O Chile passou por 30 anos de ditadura. Foi um dos países da América Latina que sofreu com ditadura militar. É meio sofrido, porque existem diversos monumentos em memória aos sequestrados, torturados e mortos. E,por fim, foi fundado esse museu. Logo na entrada, tem a declaração dos direitos humanos escrita na íntegra. Lá dentro não pode fotografar – ainda bem. Foi uma das melhores e piores experiências que tive no Chile. Chorei feito criança. Recomendo para os fortes, mas não para quem é muito sensível. Eu sou uma das pessoas menos sensíveis que conheço e eu chorei.

Como eu tinha prova de espanhol na quinta, passei a quarta-feira em casa estudando. Afinal, com esse monte de passeio todos os dias, fica difícil ter tempo para estudar. Foi bom ter estudado um pouco, eu fui muito bem na minha prova.

Na quinta-feira, eu visitei uma das casas do poeta Pablo Neruda, que se chama La Chascona. Não pode fotografar dentro da casa, apenas nos jardins. Mas é bem legal. É uma visita que eu gostei muito de fazer. O poeta era muito bem humorado e tem várias coisas divertidas na casa. Eu adorei visitar.

A sexta-feira já começou em clima de despedida, porque era último dia de aula, porque alguns dos colegas iriam embora no sábado de manhã e porque a minha estadia realmente estava chegando ao fim. Ficou um misto de felicidade, tristeza e missão cumprida.

Depois da aula e de receber os certificados, eu e minha amiga fomos almoçar no Barrio Paris Londres, que é composto basicamente de duas ruas que te fazem se sentir na Europa. Casas de paredes grossas e uma arquitetura apaixonante. Na rua Londres, tem um outro memorial da ditadura: uma casa em que se torturava gente. Para minha sorte, estava fechada e não pude entrar. Mas na calçada em frente, tem o nome das pessoas que foram torturadas ali.

Comemos uma comidinha maravilhosa e o clima também estava super agradável. Pude tirar o casaco pesado e ficar apenas com um fininho – e olha que estávamos comendo na calçada! Depois disso, fomos ao supermercado comprar coisinhas encomendadas – no meu caso, duas garrafas de vinho. Não quis ficar carregando coisas pesadas e muito menos pros outros. Não trouxe nem souvenir.

O sábado e o domingo foram de despedida mesmo. Fui a uns cafés, comi fora de casa, caminhei nos parques de Santiago, bebi cervejinha e até tomei sorvete no frio. Terminei o domingo assistindo Game of Thrones num bar – que esquisito acompanhar com legendas em espanhol, ainda bem que não precisava delas.

Foi isso. A segunda foi dia de viajar e de introspecção. Aproveitei para ler bastante, ouvir muito barulho de chuva e brigar com crianças que chutavam minha cadeira. Foi ótimo. Cheguei em Vitorinha e fui recepcionada com um ótimo café e o retorno da Antena 1 – não poderia ser melhor.