não é pastel de belém

Como consta ali no cantinho, eu sou lusobrasileira, o que significa que sou meio portuguesa e meio brasileira. Nasci aqui no Brasil, mas minha mãe veio d’além mar. Não sei se algum dos leitores tem um ou ambos os pais estrangeiros, mas ter mãe portuguesa me trouxe alguns hábitos não brasileiros – acreditem, eu acho super estranho comer arroz e feijão todos os dias.

Bom, a pior parte de ter mãe não-brasileira para mim é morar no Espírito Santo e não comer Torta Capixaba na semana santa. Aquilo é uma delícia de deus. E tem que ser aquela com todos os mariscos nojentos. Esse lance de torta só com bacalhau e palmito não tá com nada.

Depois de alguns anos e algumas visitas a Portugal, além de todos os anos de criação, eu aprendi algumas coisas: come-se bacalhau em absolutamente qualquer situação festiva; vinho da madeira é aperitivo suficiente; as caravelas saíram do Rio Tejo; e os pasteis são de nata.

Mas, não, pera, eu sempre comi pastel de Belém. Então, vamos a uma pequena aula:

No século XIX, existiam as localidades Lisboa e Belém, que passaram a ser uma coisa só muito depois. E ali, em Belém, clérigos criaram uns pasteis de natas e os comercializavam como forma de subsistência. Como o Mosteiro dos Jerónimos ficava em Belém, os pasteis ficaram conhecidos como Pastéis de Belém.
Depois que o mosteiro fechou, o pasteleiro vendeu a receita dos pastéis a um empresário, que a patenteou e abriu a Fábrica de Pastéis de Belém – que fica em Belém -, na qual pode-se apreciar um apetitoso pastel com canela e açúcar, acompanhado de café.

Como a receita foi patenteada, todos os outros pastéis são meros pastéis de nata. Então, se você falar para um português que comeu pastéis de Belém sem nunca ter posto os pés em Portugal, ele vai te perguntar se alguém trouxe de lá.

crise no ES #2

Aqui no Espírito Santo, as ruas estão  sem policiamento desde a madrugada de sexta/sábado. Hoje já é quinta feira. Se não estou equivocada, na noite de segunda começaram a chegar, em Vitória, Guarda Nacional e reforços do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Estava de férias em Minas Gerais e cheguei ao ES no domingo à noite. Mesmo sabendo da situação crítica, fui trabalhar na segunda. Fui liberada mais cedo e a sensação era de muito medo.

Os ônibus não circulam ou circularam durante pequenos períodos desde terça-feira (07). A ausência de ônibus circulando já é requisito suficiente para eu me ausentar do trabalho, mas, de qualquer forma, como não há segurança na agência em que trabalho, ela fica impossibilitada de abrir. Ou seja, não trabalho desde então.

Minha comida começou a acabar, então eu fui ao mercado ontem pela manhã. Prateleiras praticamente vazias, carrinhos lotados, muita fila. O entendimento meu foi de que as pessoas estão estocando e os mercados estão ficando sem estoque. Eu cheguei a ver dois homens que pareciam ser gerentes ou proprietários abastecendo algumas prateleiras.

As pessoas pareciam muito apressadas. Ninguém queria ficar muito tempo fora de casa. Muita ansiedade. O mercado fecharia às 13h. Saí depois de meio-dia e ainda havia muita fila. Nesse horário, as ruas já estavam bem mais vazias. Não tinha nem carrinho disponível – fui amontando as compras na minha sacola mesmo e meu pão ficou todo amassado.

Comecei a ouvir teorias da conspiração sobre como tudo o que está acontecendo não passa de um teste para um futuro golpe militar no Brasil todo. Sobre como os bandidos que roubaram dinamites vão explodir as portarias dos prédios e saquear tudo e matar as pessoas. As pessoas, depois de 6 dias de caos, deixaram de ser razoáveis.

A minha rotina tem sido acordar e verificar nos jornais se os ônibus estão circulando e acompanhar no WhatsApp se eu preciso ir trabalhar ou não. Como trabalhar não tem sido possível, gasto meu tempo assistindo séries e lendo El amor en los tiempos del cólera. Também tenho tentado colocar alguma quantidade de razão nas pessoas, mas essa parte é mais difícil.

Ontem, um amigo da PM me ligou. Queria me contar um pouco da versão deles. Não foi nada muito diferente do que eu imaginava, mas algumas informações me surpreenderam. Primeiramente, aumento de salário não é a principal demanda – os jornais veicularam como se eles exigissem aumento de 100%. Em segundo lugar, as condições de trabalho deles – assim como da maior parte do serviço público – não são as mínimas para fazer o trabalho deles: falta colete; os armamentos estão sucateados – e perigosos; as viaturas estão sem manutenção e nenhuma delas é blindada.

O governo ontem à noite se reuniu com as esposas dos militares e não fez nenhuma contraproposta. A reunião durou cerca de 3h. Agora, às 14h de quinta-feira, haverá nova reunião em que o Governo deverá apresentar algo. A população aguarda.

crise no ES #1

Antes de começar o texto, quero deixar claro que ele não é jornalístico. Se trata apenas das minhas percepções do que está acontecendo. O que eu vi – e não o que foi compartilhado nas redes sociais.


Quando recebi as primeiras mensagens no WhatsApp informando que não haveria policiamento nas ruas, eu estava passeando tranquilamente em algum canto de Minas Gerais. Meu comportamento padrão é não dar a mínima para esse tipo de mensagem – e foi o que eu fiz.

No domingo (05), eu peguei um avião para voltar para Vitória. Devido às outras crises, peguei uma conexão em Congonhas – e foi aí que comecei a dar atenção às mensagens. Minha mãe e minhas irmãs estavam super preocupadas com o meu retorno, pediam para eu não dar bobeira e minha mãe me disse que me buscaria no aeroporto. Inicialmente, entendi que a ideia era me proteger: se ela me buscasse, eu não precisaria ficar esperando o táxi ou Uber e poderia vir logo para casa.

Eu tenho o mau hábito de tirar o celular do modo avião antes do aviso do piloto. Isso posto, antes de eu sair do avião já tinha uma porção de mensagens da minha família e minha mãe me ligou antes mesmo das portas se abrirem. Ela dizia que a cidade estava como nos western movies e que achou mais seguro não sair de casa e me implorou que pegasse um táxi e viesse logo para casa.

Acredito que todos estavam assustados. Havia uma enorme fila para pegar táxi. A taxista disse que a cidade estava uma loucura. Que viu muita gente armada e, inicialmente, pensou que fossem policiais. Ficou muito assustada ao perceber que eram, na verdade, bandidos.

Durante o trajeto até minha casa, vi pouquíssimos carros e nenhum bípede. A taxista avançou uma porção de sinais. Embora já passasse das 22h, esse tipo de comportamento não é muito comum. Ela também mal me esperou entrar no prédio, arrancou com o carro tão logo eu abri a porta para entrar.

Minha mãe não parava de me ligar. As distâncias em Vitória são muito curtas. Aparentemente, Dona mamãe achou que demorei muito e me ligou quatro vezes da hora em que o avião pousou até a hora em que cheguei em casa.

Uma amiga me mandou mensagens perguntando como estavam as coisas aqui perto da minha casa. Na minha rua tem uma hamburgueria e uma pizzaria. A pizzaria, famosa por fechar tarde, estava com as luzes todas apagadas e os funcionários ainda na varanda, prontos para ir embora. Havia também poucos carros. A taxista informou que todos os bares e restaurantes estavam fechados.

A sensação que eu tive foi de pânico e histeria generalizados. Comecei a pesquisar com calma nos jornais o que estava acontecendo e qual era a previsão para a segunda-feira.

O que eu entendi foi: familiares e amigos de PMs fizeram piquete em frente aos quarteis e não permitem a saída de viaturas; consequentemente, a população começou a sofrer assaltos, assassinatos e as lojas sofreram saques; não há segurança.

Fui aconselhada a não ir trabalhar. Ao acordar, procurei saber se a empresa na qual trabalho havia se manifestado em relação ao assunto, mas fiquei sem resposta. Me informei e vi que os ônibus municipais estavam circulando normalmente. Me arrumei e fui trabalhar – embora não houvesse apoio dos meus familiares e nem dos meus amigos.

Comecei a entender melhor a gravidade da coisa ao notar que a maior parte do comércio estava fechada. No caminho,vi uma ou outra loja que fora arrombada e saqueada na noite anterior. Vi poucas pessoas e carros na rua. Ao chegar no trabalho, fui recebida com cara de espanto. Os colegas me diziam O que você está fazendo aqui? Vai para casa!!. Ninguém sabia informar se a agência abriria ou não.

A diretoria se manifestou bem depois das 10h e ainda assim a agência não funcionou em sua plenitude. Apenas um dos caixas foi trabalhar e eu fui fazer serviço interno, porque era preciso. Mesmo assim, a maioria dos colegas foi para casa, embora a ordem era de que trabalhássemos normalmente.

Estava estranho. Não vi ambulantes na rua. As pessoas estavam tensas e, mesmo no centro da cidade, pouquíssimas lojas estavam abertas. Elas tornaram a fechar muito antes das 13h.

Como não havia comércio, pedi à minha mãe que me levasse almoço. Quando fui para a porta esperar por ela, entendi um pouco melhor o cenário. Muita gente nos pontos de ônibus querendo retornar às suas residências. Muita gente à toa na rua.  Os carros numa velocidade acima do normal. Peguei meu almoço e voltei pro trabalho.

Me deram então a oportunidade de vazar. Comi, terminei meu trampo e pedi pra minha mãe me buscar. Eu seria liberada espontaneamente às 14h, mas decidi ir às 13h. Já não me sentia segura para esperar um ônibus. Inclusive, se ali no centro da cidade já estava tão estranho, imaginei que no bairro em que moro não houvesse uma alma penada na rua.

Ninguém parava no sinal, todo mundo com direção ofensiva. Minha mãe falando bem mais rápido. O movimento das pessoas era nitidamente o de retornar às suas residências e se trancar lá dentro – meu deus socorro não quero sair de casa nunca mais. Orientei minha mãe a não parar se alguém se enfiasse na frente do carro. Desci na frente do meu prédio e estou no meu quarto ever since.

Embora tenha ouvido muitos relatos de tiroteios, não ouvi e nem presenciei nenhum. Uma amiga teve o carro levado. Uma amiga viu uma loja ser saqueada. Eu vi loja que passou por saque. Um colega de trabalho foi assaltado no caminho de casa. A maioria das pessoas não saiu para trabalhar.

Como a notícia foi de que os ônibus cessariam às 16h, a maior parte das pessoas que conheço foi liberada às 14h. Aparentemente, os ônibus não retornam enquanto a PM não retornar. Com isso, não consigo sair para trabalhar amanhã. Guardamos as bicicletas e estou torcendo para encontrar meu carro inteiro na garagem quando eu tiver coragem de descer até a garagem.

Enquanto ainda tenho comida, não há motivo para pânico. Decidi ficar em casa amanhã. Vamos ver o que acontece até lá.

special k

I am quite sure I’ve told this story here before. Let me try it one more time.

Last new year’s eve, my brother, his cousin and I were talking about how many times we’ve fallen in love. He’s fallen in love about 7 times his whole life. I told them I’ve fallen in love twice, I’ve loved once and put myself under control once. It is weird to fall in love all the time. It doesn’t happen to me.

Anyway, as I was heading home – way earlier than I expected – I got a message from the guy I’ve loved asking me if I was in town. When am I not? I’m always around.

*
No hesitation, no delay
You come on just like special K
*

Since he lives far far away, he invited himself over. It was so good to have him around. I invited myself to stay at his place a few weeks later when I was going to be at the city he lives in. He said it was ok.

Actually, it wasn’t. But he is so complicated, I don’t even bother. And it was awesome. I’ve been home for three days already and I feel as if I’ve fallen in love for him all over again. Let’s hope I haven’t.

*
Taking me higher than I’ve ever been before
I’m holding it back, just want to shout out, give me more
*

força

Quando eu ainda era uma adolescente novinha e magrela, eu fui quase atleta de GRD. Durante as competições, no momento imediatamente antes ao que alguma colega ginasta iria começar sua série, gritávamos forçaaaaaaaA. E isso era a melhor coisa de se ouvir – era sinal de que suas colegas de equipe te apoiavam.

Semana passada, eu completei um ano de casa (yay!) e semana que vem eu terei meus primeiros dez dias de férias remuneradas da vida. Nunca tirei férias, sempre continuei lecionando e isso sempre foi muito cansativo.

Depois de um ano inteiro de faculdade e 20h de trabalho semanais, acho que o descanso é merecido. Me obriguei a viajar no período, pra garantir que sejam férias, e não apenas um monte de dia em que fiz nada e só derreti no calor infernal de Vitorinha.

O problema é que resolvi fazer uma tal prova para a qual eu deveria estudar muito e ainda nem comecei. E depois vou viajar dois fins de semana seguidos. E eu nem comecei, porque a faculdade me sugou tanto no ano passado, que eu decidi parar de estudar. Tenho certeza de que é isso que está me impedindo de começar a estudar para a tal prova.

Hoje, para minha alegria, eu me senti entediada e isso quase me fez levantar pra estudar, mas acho que o tédio não era tão grande assim. Vamos ver se isso melhora nos próximos dias.

Força.

só um milagre

Eu evito passar muito tempo no Facebook, mas hoje eu resolvi gastar um tempo com bobeira, porque eu ando muito chateada (vai precisar de outro post).

Passando o feed, vi que um amigo postou um desses testes que dizem como será seu relacionamento em 2017. Dizia só um milagre. E eu ri, porque eu me vi ali. Não que eu esteja esperando o milagre, mas é como se precisasse de um pra acabar com essa vida solteira que já dura seis anos – and counting.

No fim das contas, o que falta é um pouco de vontade. Um pouco de paciência. Um pouco de leveza. Falta deixar a preguiça de lado. Me sinto cada vez mais com preguiça: preguiça das pessoas, dos jogos, das interações, das descobertas, dos perdões.

Cheguei num ponto em que digo que ninguém é interessante. E eu dei lá oportunidade para alguém ser interessante? Acho que não dei oportunidade nem de eu ser interessante, quiçá os outros.

Parece que a cada dia eu mato um pouco da minha tolerância. Se a pessoa bebe Brahma, então não tem bom gosto – aliás, nem tem gosto. Se a pessoa não fala uma língua estrangeira, então é insuficiente. Se a pessoa não entende uma piada, então tem problemas cognitivos. Se não gostou de morar fora do Brasil, não serve, porque quero ir embora. Se me manda mensagens todos os dias, me sufoca. Se desaparece, não me interessa. Se me chama para beber todos os dias, não entende que minha rotina é complicada. Se evita me chamar pra sair, não quer estar comigo. Se é sincero, é em demasia. Se mente, não me serve. Se me liga – alguém liga hoje em dia? Se o gosto musical não bate, então… ah, gente, por favor, o gosto musical tem que bater.

Ao fim e ao cabo, eu me sinto cada vez mais Ted Mosby. Ou crazy cat lady. Quando me perguntam se estou num relacionamento, respondo apenas que tenho gatos e isso basta como resposta. É como se eu dissesse que quero estar sozinha e estou satisfeita com isso. E, bem, estou.

Mas quem disse que não é gostoso receber um carinho? Quem disse que não é bom ter alguém além da sua mãe pra contar uma novidade?

A sensação é de que todos querem carinho, mas no strings attached. Não pode. O legal é ser pinto amigo. É não ter compromisso. É não se importar. É mijar em todos os postes. O legal é ser um projeto de Barney de HIMYM ou Luke de LovesickBut they are broken – and it seems like we all are.

Estou aqui, aguardando o momento de sair do status de antes só. Sinceramente, na atual conjuntura, prefiro mesmo meus gatos.